A parte que me cabe é ser feliz. Todos
os dias costurar as pontas e fazer desenhos na minha mente, retalhos em sonhos.
No corpo o óbvio: andar, falar, sorrir em movimentos. A parte que tenho não se identifica
é música nascente e eterna. Sentimentos exagerados (tímidos até), o meu quinhão
(herança da alma) neste mundo sou eu mesma, e se não me entrego (fazer a
partilha desprendida) por completo, por amor, não sou.
Se ao menos pudesse escrever uma
longa carta. Não adiantaria, o destinatário é meu próprio peito. A escassez
das letras é espírito silencioso e inquieto. Seria redundante ler o que já sinto: vontade de ficar e voar, chegar, voltar e repetir.
Não tente matar a saudade. Faça da ausência , vazio
pertubador ,uma companheira inocente, a convicção em exterminá-la só a torna inesquecível. (Como cheiro de criança) .
Vento me leva , parada, estagnada,
todo mundo me olha, mas eu já não estou . Rodopiando entre sonhos , eu me molho
na chuva que nem caiu, o sol até queima , mas só quando deixo. Corto meu rosto
nas folhas secas que também voam , existem as flores e construo arranjos, sou
dama , noiva , florista. Vejo paisagens, e formo cenários que ninguém conheceu...
Sem nenhuma bagagem , passaporte invisível, essas são as minhas viagens .
Fechou o livro “Nas margens do rio Piedra eu sentei e chorei”. Sentar e chorar?Deu um sorriso do tamanho da sua felicidade , ficou mais linda do que nunca , saiu
sem destino e deixou o choro para os tolos.
Tudo que possuia era um baticum
constante no peito, sonhando (acordada) lembrando o presente persistente, mas a dança da
alegria havia ficado no caminho , todos os dias ela buscava pedaços do tempo e a
vida existia...
Vento frio , ventania descuidada . Na boca vinho para esquentar , boa música existe , noite entrando pela janela , tarde querendo ficar, como o amor , que se finca e que bom que me engole . YL
Maravilhosos e abençoados . Música pra viver . Quem acreditou na vida como eu (Chico Buarque) Chico e MPB 4
Alguns contam dinheiro obscuro e sorriem, outros catam luz e
sem saber cegam, outros contam pétalas de flores e se cortam, choro engasgado. O reverso de um
poema sonhado.
Ontem o beija – flor, quieto, cansado
lá no alto, maravilhava meus olhos , deu vontade de mimar. Em segundos voou . Presença
rápida da beleza . Ausência como presente inesperado (sempre esqueço que eles voam)
Algumas vezes o amor faz isso: preenche , depois deixa um lugar vazio , como lá no
fio .
Colecionei cadernos e fotos .
Depois percebi que só amontoava o passado . Na caixa antiga, vi
um tempo perdido, pedindo saída, sufocado por minhas angústias, deixe-o livre,
mas sem despedidas, vez em quando bate na porta como um amigo, trazendo apenas sorriso.
Dona de todos os conceitos, “sentir
falta” era imauridade, mas só em ouvir o nome dele, o tremor nas mãos e a
respiração ofegante desmontavam sua pose. Dentes mordendo os lábios.
Não acredito nas pessoas que
sorriem demais, onde tudo é sempre blue.
Acredito na consequência, numa ciranda de sentimentos. Nascer para
viver, amar para chorar, sofrer e sorrir. Dormir, acordar e sobreviver. Beijar e
fechar os olhos. Uma imperfeição mágica. Quem muito se mostra feliz, me afasto
um pouco, resguardo meus defeitos preciosos, pois temo cair num abismo, na
imensidão de uma alma vazia.
Irresponsável. Sem medidas nem cautelas,
sem a noção do tempo . Ontem , aliás , hoje e amanhã . Todo dia se esquecer, virar
território sem lei e sem fronteira . Fugitiva de si , roubando sonhos e
realizando, caça deixando se achar, presa dominada, fechando olhos alheios no
momento do beijo e verdadeiramente amando.
Quando a alma aquieta-se , o vazio
não existe . Só na dor se pode falar de amor? Não. Ele pleno não há espaço para lamentações .
É aquele amor que cala, pondera e equilibra .Completo , nem que seja por
segundos .
Erasmo Carlos e Marisa Monte : Mais um na multidão
Tudo que faço é com um amor
exagerado, passional e inquieto, às vezes me dou mal, mesmo assim continuo impulsiva
e amorosa. De uma coisa eu sei: jamais dirão que não conheci as manhas dos sentimentos
bons. Eles também são esquisitos e ainda assim eu os quero. Não gostaria de
viver tateando gestos que não somam, nem se multiplicam . Quero um simples beijo, ou
uma vontade de estar somente perto...
Não se convence ao outro que ama. Ama-se e pronto. Do contrário seria uma violência contra a liberdade, fazer do outro um prisioneiro das nossas próprias fraquezas. Deixemos que o amor se mostre como criança, sem a menor pretensão de receber nada em troca, assim seremos gigantes.
Que se torne o tempo sempre a
melhor forma de nos enganar. Sensações e desejos repetidos, dias já contados, pessoas
passando no mesmo quadro. Ilusão de paisagem, algo intangível mudando o cenário.
Novo dia no papel passado, marcado no ontem, que ironicamente, estará novamente
no calendário.