Muitos não morrem, viajam. Quando
o amor existe, a saudade nos engole. Ficamos com a ansiedade do reencontro, por
uma questão de sobrevivência ou fé.
Lulu Santos : Vale de Lágrimas
P.S: Este post é para os meus amores que já "viajaram": Meu pai,Vovó Maria e Tia- Mãe Marilda minha saudade todos os dias. Vocês me ensinaram o que é amar e ser amado com toda a força ...
Meu aniversário de 2 anos ,depois que ele voltou do exílio no Chile
Amo de uma forma maior e eterna. Sentavámos lado a lado, outras vezes a mesa quadrada deixava-o de frente a mim. Olhar de fitar horizonte. Um homem que admiro.
Confidentes e inconformistas somos nós dois.
Assim combinávamos tudo e muito mais. Cigarros cubanos, bebida, música e conversa. Que mau exemplo!Muitos achavam,mas ele dizia que pior era saber que um filho seu ,não enxergava a realidade.
Eu não tinha 18 anos. Mas era assim. O olhar de ciúme muitas vezes revelado, por natureza humana, me prendia na sua liberdade de achar que tudo era normal, até trocar segredos comuns e medíocres.
A comida eu não fazia, ele preparava e me esperava. Um tempero que lembrava seus pensamentos jurava que iria colocar o sal, ele vinha com uma fruta e dava certo. Tempero agridoce , mistura que travava a língua.
Mas as conversas não haviam freios,elas fluíam.Ele me amava completamente e a minha vaidade se mostrava como um buquê trazido do jardim do vizinho,aquele que nasce caindo pelo lado de fora do muro e causava inveja na rua inteira.Era assim,foi assim.Ele me fez assim.
Sonho ou passado vivido, ele mora em mim.
E a sua presença é constante e forte, a ausência que incomoda porque cobra o que não posso tocar e abraçar vê-lo defender a injustiça de uma forma nunca vista por nenhum homem que conheci até hoje. Ele é coragem pura. O verbo no presente é escrito por sua presença-ausente está em todos os lugares que chego que me reconhecem, sim é você que existe.
Você corria atrás da verdade como se fosse voar, até agarrar um vôo cego, muitas vezes caía, mas nas mãos ele trazia a prova. Assim eu aprendi. Podemos ser o que for laços sangüíneos não ditam caráter, e era isso que me fez crescer não aceitando a camuflagem da hipocrisia, da voz sonsa, do sorriso doce que esconde o veneno letal.
Domingo passado não foi diferente, era você presente em todos os lados da mesa ironicamente quadrada como a “nossa”. A cada história lembrada, um orgulho aflorado, a saudade rindo de mim.
As falas lhe descrevendo. Sua poesia espalhada, meu desejo vago. Não estava mais ali naquele momento, voei até nosso canto e conversei com você no meu pensamento.
Acalmei meu coração,como aquela comida que aquece, e fui de novo seu alento, queria entender:
- Por que a gente não se esquece?...
Yasmine Lemos
p.s: meu pai "resolveu" ir embora dia 04 /06/1999 aos 56 anos, foi quando a saudade se apresentou e não me deixou mais .