Continuava ela a olhar o tempo no seu fingimento de não passar. Ele passa sorrindo, ri da angústia da moça, nem ele volta os relógios, lembrava. Ela não fazia barulho algum, mas por dentro os terremotos de agonias desmontavam seu sorriso de fotografia . Iria ser normal sim, mergulharia seu vazio no vinho, não notaria o rímel borrado nem o batom se desfazendo sem beijo, falaria bobagens, e reclamaria de conversas piores do que as dela, entre vozes e vultos brilhosos artificiais, a viagem invisível: saudade! Grita o peito. Em casa, corpo dormente, não se esqueceu do senhor tempo que amanhã mostraria os mesmos barulhos de sempre.
A poesia mora na mansidão, na exaustão depois da guerra, nesse cansaço de nada saber, no esgotamento. É lá que ela mora. Silêncio. Escute o que ela pede.
Para florir é necessário a dor que ninguém ouve,depois a felicidade que todo mundo percebe.
Quem sou eu para poder pedir
refúgio a Deus? Ele é misericordioso tanto que nos deu a permissão de errar e
pedir perdão.
Deus é meu refúgio no meu
maior silêncio, no meu maior sorriso, na minha maior solidão, mesmo acompanhada
por Ele, ali imensa e visível como o voo do passarinho.
Nos erros repetidos e
sozinhos, no choro, no amor do beijo do filho, meu refúgio nas minhas falas ao
vento.
Sou tão imperfeita que preciso
Dele todos os dias , quando escuto as folhas caírem , as flores secarem,
renovação da minha alma. Quem sou sem Ele? Como Davi louvarei em cânticos e até
na minha silenciosa alegria. Obrigado Senhor.
Entrou na editora e disse que queria
fazer um livro, com seus quase 80 anos, saudável, simpático e sorridente. Era
um livro de poesias, falavam de amor e saudade. Nas muitas conversas revelou
que na juventude tinha vivido um grande amor mas não puderam casar e muitas das
poesias eram para ela, narrou detalhes de uma história linda e triste, ele
disse que foi feliz com sua esposa e filhos, mas nunca a esqueceu. Livro pronto
nas mãos seus olhos lacrimejaram e eu não me contive e comentei que
infelizmente sua amada jamais saberia dos versos, tomado de volta a realidade
ao me ouvir, o livro sendo folheado lentamente, de cabeça baixa me disse que
havia localizado seu endereço e seu telefone, ligou para ela e avisou que havia
colocado um sinal em cada poesia que falavam deles e que mandaria por uma
amiga. Confesso que fiquei espantada e emocionada com a resignação de um
sentimento, o “fui feliz” que ouvi dele não significou nada e a certeza de viver
em plenitude é muito raro. Na minha cabeça a música de Antonio Marcos “Sempre
no meu coração”. No coração daquele homem um amor, sim acho que isso é amor de verdade,
porque tem que ter espinho, flor, folha e verso.
Sejam benditas as suas falas , quero
todas em meu silêncio, pois são minhas em fatos e desejos. E minhas serão as
falhas nas falas dos dramas que criei, que você fez roteiro desnivelado e voraz.
Aos tropeços buscavas o desfecho de dois, depois calava... Nada de panos entre
nós. Deixemos os problemas nos mesmos lugares, as poeiras estranhas que embaçam
os sentidos bons. Façamos de conta que somos quase cegos, enquanto tateamos
rituais de luz, entraremos em comum acordo como bons negociadores do destino
jogador. Salvaremos nossos defeitos, pouparemos nossos pecados, do contrário
seremos santos,isso não, os santos não se beijam, nem se amam .
A delicadeza de Deus está nas
armas no chão, na solidariedade, no excesso de paz, no silêncio sábio dos
idosos, na risada esperançosa da criança. Está na ausência da violência, da
fome, do egoísmo, da ambição.
A delicadeza de Deus precisa do
coração do homem. Onde estão estes homens?