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sexta-feira, 31 de março de 2017

Saudade! Grita o peito.





Continuava ela a olhar o tempo no seu fingimento de não passar. Ele passa sorrindo, ri da angústia da moça, nem ele volta os relógios, lembrava. Ela não fazia barulho algum, mas por dentro os terremotos de agonias desmontavam seu sorriso de fotografia . Iria ser normal sim, mergulharia seu vazio no vinho, não notaria o rímel borrado nem o batom se desfazendo sem beijo, falaria bobagens, e reclamaria de conversas piores do que as dela, entre vozes e vultos brilhosos artificiais, a viagem invisível: saudade! Grita o peito. Em casa, corpo dormente, não se esqueceu do senhor tempo que amanhã mostraria os mesmos barulhos de sempre.

Yasmine Lemos

segunda-feira, 15 de fevereiro de 2016

Versos e sinais



Entrou na editora e disse que queria fazer um livro, com seus quase 80 anos, saudável, simpático e sorridente. Era um livro de poesias, falavam de amor e saudade. Nas muitas conversas revelou que na juventude tinha vivido um grande amor mas não puderam casar e muitas das poesias eram para ela, narrou detalhes de uma história linda e triste, ele disse que foi feliz com sua esposa e filhos, mas nunca a esqueceu. Livro pronto nas mãos seus olhos lacrimejaram e eu não me contive e comentei que infelizmente sua amada jamais saberia dos versos, tomado de volta a realidade ao me ouvir, o livro sendo folheado lentamente, de cabeça baixa me disse que havia localizado seu endereço e seu telefone, ligou para ela e avisou que havia colocado um sinal em cada poesia que falavam deles e que mandaria por uma amiga. Confesso que fiquei espantada e emocionada com a resignação de um sentimento, o “fui feliz” que ouvi dele não significou nada e a certeza de viver em plenitude é muito raro. Na minha cabeça a música de Antonio Marcos “Sempre no meu coração”. No coração daquele homem um amor, sim acho que isso é amor de verdade, porque tem que ter espinho, flor, folha e verso.



Yasmine Lemos


terça-feira, 10 de setembro de 2013

Tô só dizendo...

Como é bom ser sincero, buscamos essa virtude para nos vangloriar e levantar a taça da ética. Hoje quase todo mundo é feliz e mente compulsivamente, é só dá uma olhada nas redes sociais, lá não existe gente feia, nem tristeza, nem pobreza.

Mas eu quero falar sobre Dona Menina.

Ela falava verdades cortantes com uma naturalidade de desarmar o melhor psiquiatra, porque naquele momento a verdade dela prevalecia e na sua ignorância e sabedoria de vida sofrida, a cautela passava longe. Não era louca, era pobre  e MUITO sincera.
 Amiga dos seus filhos e filhas eu adorava quando ela pegava um para Cristo. 

“– menino vem cá, como é que você pode namorar uma mulher tão feia hein?” , “- Menino ,psiu presta atenção,ela só quer seu dinheiro, tô só dizendo...”

Um silêncio pairava na varanda da casa e ninguém ousava sequer reclamar, o marido não era nem louco, os filhos nem pensar.Eu adorando tudo.

Sempre me arrumava e o ponto de apoio e saída da turma era na casa de Dona Menina, certa vez ela me pegou. Era uma mistura de bullying e terapia gratuita. Eu inocente tasquei um batom vermelho nos lábios e carreguei no lápis de olhos, doze anos, me sentindo a beleza pura. Ela me fitou, balançou a cabeça, botou as mãos na cintura e lançou o comentário:

“- Mine (meu apelido) vem cá, que negócio horrível, uma menina com um batom parece aquelas mulé véia do mundo, tô só dizendo...” o pior que o batom era daqueles 24 horas. Teve cenas inesquecíveis e que ninguém ficou traumatizado e nem conseguíamos ficar com raiva.

Percebo que o grande lance é como equilibrar nos dias de hoje a sinceridade e não sermos hipócritas, melhor ficar calado, ou não escrever nada, deve ser por isso que não me adapto as redes sociais, é tudo lindo demais, é amor demais, imagino ela no facebook ou instagram ,seria processada . Quero envelhecer como Dona Menina, é isso, quero ser a que todos temem ao falar, só de imaginar eu estou rindo aqui, não vai sobrar ninguém. Que maravilha!

- Ei psiu! Menina vem cá...


YL

segunda-feira, 3 de junho de 2013

Crônica de segunda.

Sou estranha, esquisita. Sou uma pessoa com defeitos feios, sem condições de acertos para modelar os olhos alheios. Gosto de querer, gosto de sentir, ter certeza que meus inimigos pagaram por seus erros como eu paguei pelos meus. Tenho sede de justiça que chega a doer , a ser uma dor física,coração lateja e acelera e nessa estupidez , eu choro de indignação. Sou uma pessoa estranha, não gosto de perdoar quem me feriu com gana, com força na humilhação,não esqueço, quero meus inimigos longe de mim, não sei conviver com o mal. Sou tão estranha que sinto medo de mim às vezes, da minha memória terrívelmente detalhista, precisa nos fatos bons e nos ruins, eles dentro da minha mente e coração tem um peso que me faz ser água e fogo, ao mesmo tempo .Sou estranha sim, trago comigo saudades imensas, cruéis e não vou mentir que tenho certa acomodação em não querer fazer exercícios mentais para diminui-la, mas não fomento, ela chega e deixo ficar, ela é forte como um tigre, tem um abraço frio, depois ela vai embora, e o interessante é que  quanto mais o tempo passa, ela envelhece e eu viro criança, perdida no meio do escuro querendo colo de alguém, de pai, de tia, de alguém que me amou. Sou o que sou e não sou igual a ninguém, como não pensar em dinheiro e precisar dele? Quero e procuro somente o essencial (coisas para meu filho, um vestido bonito na loja popular, perfume, sapato alto ( tirar em 5 minutos com dor nos pés), comida, plano de saúde, minha casa. Sou medíocre? Devo ser. Pra mim está tudo ótimo. Faço tipo? Talvez não, acho que não. O problema é sentir demais, amar demais e respeitar os sentimentos alheios demais, o excesso é o problema. Sou estranha, esquisita. Amorosa e ciumenta. Doce e ácida quando tenho que ser, e minha mania de conversar com Deus é constante, sou tão pretenciosa que acredito que Ele pára pra me ouvir, enquanto o mundo está o caos, nesse momento em que escrevo rio sem querer, pois lembrei que nessas conversas, sempre começo pedindo perdão, uma pessoa que não sabe esquecer quem lhe fez o mal, contradição. Ainda acredito em poesia, em música que faz chorar e tenho também mania de procurar canto de passarinho no final de tarde, feito uma pessoa que não tem preocupação, problemas, sinto inveja dos passarinhos. Sou invejosa? Se for que seja só dos passarinhos. Tudo muito normal pra mim e esquisito pro mundo torto. YL


Abre alas : Ivan Lins

quinta-feira, 9 de maio de 2013

Visita de um beija-flor


Nem pensava na canção e o beija-flor brigava com todos os recantos da casa, invadiu não pra deixar beijo, queria sair. Fim de tarde, a hora melancólica, quando as saudades aguçam, os sonhos buscam cobrar uma certa incompetência humana, ele se debatia no ar .Sala, quartos, batia no teto , mas as asas não paravam.
 Desistir nunca .Luzes apagadas e o indefeso e pequeno pássaro seguiu seu caminho. Muitas vezes é preciso escurecer tudo pra enxergar alguma saída , foi preciso e linear  o voo,mesmo sofrido, pra ser mais feliz . YL

terça-feira, 11 de dezembro de 2012

PARTE CHATA




Época natalina. Qualquer assunto referente será redundante. Vou ser chata e vou falar na parte chata dessa época .Com as esmurradas da vida somos modificados na lâmina fria da realidade e os olhos são nossos parceiros em descobrir detalhes. Hora de comprar os presentes, sejam eles os obrigatórios ou os naturais, o que são escolhidos com a leveza no peito.
Conheço perfis de todo jeito, aqueles que ganham os mimos e gostam de verdade, tem também os que gostam apenas de serem lembrados e aqueles que menos me atraem: passamos o ano inteiro sem nenhum contato, nem um telefonema, não há empatia alguma e lá vai ter que escolher porque faz parte do social.
Essas pessoas tem uma característica básica: só gostam de grifes. Só usam acessórios caros, embora muitas vezes não realcem nada no corpo. E a pior parte: olham o pacote com as sobrancelhas pra cima e um olhar de preocupação e curiosidade antipáticos, buscando entre os dedos nervosos a marca, a etiqueta do produto.
Como queria ser criança nessas horas e poder dizer o que sinto, usar um palavrão mesmo, daqueles bem grandes. Tem pessoas que temos o prazer em presentear outras mereciam um saco de etiquetas, usadas. Quem nunca ouviu esta frase: - “Não precisava não ter este trabalho...” ao mesmo tempo em que amassa com as mãos todo o pacote com o rosto amarelado. Depois vai correndo na loja saber o preço e trocar a mercadoria. Já estou bem ressabiada , mas tendo que ter jogo de cintura de quem dança bambolê . 

quarta-feira, 5 de dezembro de 2012

CORRENTES AMOROSAS




Edneide estava acorrentada, não dormia direito, comia muito e com seus 80 quilos, o vestido justo das noitadas “... cada dia mais curto...” (usando descaradamente a frase da canção de Chico (minha história). Edneide é trabalhadora doméstica. Mulata genuína, nasceu no Morro da Mangueira no Rio de Janeiro veio para o nordeste morar na casa dos padrinhos no interior de Pernambuco, estava dando trabalho demais aos pais. Com seu sotaque dengoso e seu rebolado fez logo amizade e conseguiu emprego em Recife numa casa de família tradicional. Acorrentada, este é o assunto. Apaixonou-se por um homem casado, caso cheio de atropelos. 

Ela já estava esgotada, a velha história, não dava pra disputar com a madame, ele era um cara rico, bem sucedido , vida feita, sociedade ,preconceito, era só sexo. Ela era bem “conhecida” da sua rapaziada, mulher experiente, “negôna” que sabia jogar em todos os sentidos, mas agora estava perdida, desaprendeu tudo, nem parecia aquela que no carnaval misturava samba com frevo em pulos extraordinários, aquela que mentia para os ficantes e no veraneio fazia sucesso nas rodas de samba dos nativos.
Não sabia o que fazer, a patroa reclamava do excesso de sal na comida, dos soluços na hora de qualquer música no rádio. Edneide resolveu pedir ajuda a um religioso. Andando no comércio pegou um panfleto : “ Igreja Mundial da Paz do Corações Sofridos para Cristo e para os Homens” Ed viu ali sua salvação.

Já no meio do palco, a igreja lotada, ela de joelhos, e um homem com um livro imenso na mão gritava: “- Você está acorrentada minha irmã!” E aos berros sacudia a cabeça de Ed pra frente e pra trás e sua calcinha fio dental já incomodando sua minissaia subindo, e os fiéis da ala masculina gritando: “Ô glória”! É o paraíso!”. Fim do descarrego. Ela foi aplaudida como uma popstar que chega na cidade maravilhosa , material girl.

Estava salva daquele sentimento, acreditou. Lembrou os conselhos do líder espiritual: “- ouça hinos, cante altos os louvores, não esqueça” e também que havia esquecido   de pedir a Deus um iphone 5, de repente pagaria em 300x no carnê.
Dobrando a esquina, na feira, um vendedor ambulante vendia o mais novo CD da dupla Bruno e Marrone , com antigos e novos sucessos. Edneide não contou conversa, comprou.

O descarrego valeu para a igreja, ela havia deixado metade do seu 13 º na sacolinha, a família já não aguentava mais ouvir: “acorrentado em você” no som da Ed, agora “A Possuída”.

Yasmine Lemos
Direitos autorais reservados
lei 9.610 de 19/02/1998


Da blogueira: eu sou fã da dupla, ouço muito suas músicas. A música me serviu apenas de inspiração, a música é universal,  amor é campo democrático e livre,não fazendo divisão de classe, o amor é igualitário, jovem ,ridículo ,fraco e forte,brega e lindo,chique e cafona,rico e pobre,todos sofrem da mesma forma . YL

Bruno e Marrone :Acorrentado em você

quinta-feira, 26 de julho de 2012

AMOR PIEGAS É O QUE TENHO.




Sempre acreditei que o amor não tinha tempo, não tinha relógio, amor é sentimento inexplicável ao mesmo tempo adjetivado a cada segundo que um coração pulsa de saudade, de alegria, de esperança.
 Acho que não tenho total culpa por isto, sofro também por ser radical, mas é assim que sinto, assim que sei viver e ser eu.

Tive referências fortes, fui criada por um pai que não temia abandonar as regras, meus pais foram assim, eram discussões fortes, palavras de amor fortes, atitudes inesquecíveis, tudo numa intensidade desconcertante para quem assistia. Está enraizado na minha alma acreditar que o amor foge das lógicas certinhas. E sei também que ele em mim é implacável quando magoado, esquiva-se e apaga como borracha toda uma história ou um rosto de quem me feriu ou fez alguém que amo sofrer, é da minha natureza e ponto. Não brigo mais com ela.
Minha adolescência inteira fui cobrada e vi minhas primas, e amigas também sofrerem a absurda cobrança de ter idade para isso, para aquilo. 

Hora de casar, hora de ter filho, hora de faculdade, mulher sozinha é feio, não se “misture” e na minha casa eu vivia ensinamentos bem diferentes, a cozinheira almoçava conosco na mesa, (isso é amor , respeito) o filho dela era nosso amigo, dividíamos brinquedos ( isso é  companherismo), o amigo pedreiro também participava dos nossas festas (somos todos iguais, meu pai dizia) ,quando tinha 19 anos ele me disse que eu não era obrigada a nada que não quisesse , mas gostaria de ganhar um neto se um dia eu achasse certo pra mim, “não é vergonha ter um filho, vergonha é casar ou fazer outra coisa porque chegou a hora dos outros e não a sua” (sic). Era assim que eu também sentia.

Não estou afirmando que se não for do meu jeito não existe amor, existem histórias lindas por aí que fazem inveja aos finais felizes das novelas e filmes, sei de milhares de pessoas extremamente burocráticas e metódicas que são felizes . Cada um com seu jeito.

Cresci ouvindo declarações de amor, meu pai escrevia bilhetes para mim, meus irmãos, minha mãe e deixava rolando pela casa. Vivi e aprendi que a hora é a gente que faz, que conveniência é a desculpa dos acomodados e preguiçosos. Beijar, abraçar excessivamente e dizer “eu te amo” é muito bom, rejuvenece a alma, o corpo, e o sorriso vem como explosão e estoura para todo lado, contagiando tudo que está por perto.

Nunca gostei de seguir regras, sempre corri delas, embora depois de ter um filho a vida puxa a orelha e lembra que agora não sou mais sozinha e tenho que ter sensatez, mesmo com a minha natureza explodindo por dentro, é nas músicas que ouço, nas linhas que escrevo, nos beijos que dou , admirando minhas plantas, cozinhando muito (porque adoro preparar com amor para quem amo) vou voando, e chego a me sentir liberta de todo esse mundo estranho. Não sou irresponsável, sou avessa aos boletins de comportamentos modelos.

Já choquei mais com minhas teorias e práticas, mas nada que ofendesse a moral de ninguém, é meu amor mesmo, jeito de viver rodeada de pessoas que amo e dizer o quanto, e beijar e abraçar. Acredito e quero continuar acreditando nesta força perfeita e nada linear que é amor e amor com verdade e sem nenhuma tabela de tempo. 

Não! O tempo não.


Quero deixar claro ao senhor da razão que a minha mente e a alma não andam juntas com o relógio, nem com leis que a sociedade hipócrita exige. Aqui bem dentro de mim sou livre! Amo do meu jeito, do jeito que aprendi, que veio no meu sangue e que brigo por amor, faço tudo por amor, assim eu sou forte, sou tempestade e nascer do sol e me sinto um universo 
pronto para pulsar.

quinta-feira, 1 de setembro de 2011

MARQUE UM X




- Por que jamais consegui ser a mais certinha e exemplar?
Deve ter sido porque nunca gostei de quarto  cor de rosa, de bonecas bem arrumadinhas na estante, nem corações desenhados nas pareces e nas bordas de cadernos, talvez porque nunca tive vontade de ir à Disney conversar com o Pateta , nem a festa de formatura, pode ser porque não mudo meu tom de voz se quero alguma coisa, porque não ando em linha reta,meus caminhos tortos não me prendem, não uso agenda, nem decoro marcas de carros ou roupas, não uso estratégias, nem conjecturas e manhas com chantagens. Será?
A pergunta que espere mais um tempo, pois, serei reprovada novamente, não marcarei X em resposta alguma, prefiro continuar vivendo ,tropeçando e nada sabendo.

Kid Abelha : Nada Sei

quarta-feira, 10 de agosto de 2011

A PROVA



Sonora Dodd era filha de um veterano de guerra no ano 1909. Ouvindo um sermão dedicado as mães ela teve a idéia de celebrar o dia dos pais, pois a sua mãe havia morrido ao dar a luz ao sexto filho. Sonora cresceu vendo seu pai criar os filhos com dificuldade e orgulhava-se dele.

Já adulta conseguiu junto ao ministério de Spokane (cidade de Washington, EUA) a oficialização do dia dos pais, 19 de junho daquele ano. No Brasil foi comemorado em 14 de agosto de 1953, por ser dia de São Joaquim, patriarca da família, depois por motivos comerciais foi alterado para o 2º domingo de agosto ficando diferente das datas americanas e européias.

Bela atitude a de Sonora, os motivos foram nobres e justos, amor incondicional, respeito e admiração. Não havia ainda o excesso de amor por tabela que vimos atualmente em nossa sociedade. Os celulares tocando e os pedidos mais absurdos do outro lado da linha.
Sempre admirei e ficava curiosa quando via e assistia as filas nos presídios, dos filhos e filhas para visitarem seus pais detentos. Achava de uma estupidez no primeiro momento, depois sentia um misto de pena com admiração por não terem vergonha de entrarem ali, apenas para dar um abraço naquele que já tinha a vida completamente condenada e cheia de erros. Assistindo a tantas cenas e vivendo outras, não se pode medir os sentidos lógicos de quem realmente ama ou não ama. E a vida vem provando que quanto mais dinheiro tiver, maior a prova do amor. É fácil amar quem é um provedor modelo, que ama por querer o prazer, o conforto, a alegria de um filho. Deve ser difícil amar na miséria, na angústia de não saber se vai vê-lo. Daqueles pais que saem de casa um dia e somem, aparecendo meses depois ou muitas vezes, nunca. Sequer para saber se existe fome.

O sentido comercial tirou uma boa parte do encanto de amar com os defeitos explícitos, dentro do limite da dignidade humana. Não lembro exemplos raros como o de Sonora, mas lembro de uma família que morava perto da minha casa, na minha adolescência. Eram muitos irmãos. De origem humilde, mas trabalhadores, e o pai não tinha muito para oferecer, além do amor ,o teto alugado e as três refeições diárias feitas pela mãe já idosa.
Curiosa, gostava de ouvi-lo falar sobre sua vida no interior do estado. Sua cadeira de balanço ,perto das cinco da tarde, ele sentava-se na calçada e observava cada movimento da rua, tinha uma aposentadoria mínima, mas digna. 

Os filhos foram se formando, casando e eu crescendo e também tive que começar a trabalhar. Nossas conversas foram ficando escassas, mas o meu aceno de longe não podia faltar para a figura que o tempo demonstrava envelhecer. Ele voltou para sua terra. Anos depois, o reencontro com um aspecto corroído por uma doença terrível (pessoas boas não deveriam sofrer) me deixou triste e vi seus filhos ao redor, cuidando e zelando. Conversamos tão pouco, pois a dor física já calava a sua voz, ele só balbuciava. E do pouco que me disse não esqueci:

- “Feliz do homem que morre e não deixa herança, nem bens e ainda tem o amor dos filhos, eu sou um sortudo...!”

Sim, ele foi um afortunado como dizem os mais experientes, mas de amor.

terça-feira, 5 de julho de 2011

CASA ARRUMADA


Carlos Drummond de Andrade (1902-1987)

Casa arrumada é assim:
Um lugar organizado, limpo, com espaço livre pra circulação e uma boa
entrada de luz.Mas casa, pra mim, tem que ser casa e não um centro cirúrgico, um cenário de novela.Tem gente que gasta muito tempo limpando, esterilizando, ajeitando os móveis, afofando as almofadas...Não, eu prefiro viver numa casa onde eu bato o olho e percebo logo:Aqui tem vida...Casa com vida, pra mim, é aquela em que os livros saem das prateleiras e os enfeites brincam de trocar de lugar.Casa com vida tem fogão gasto pelo uso, pelo abuso das refeições fartas, que chamam todo mundo pra mesa da cozinha. Sofá sem mancha? Tapete sem fio puxado? Mesa sem marca de copo? Tá na cara que é casa sem festa.E se o piso não tem arranhão, é porque ali ninguém dança.Casa com vida, pra mim, tem banheiro com vapor perfumado no meio da tarde.Tem gaveta de entulho, daquelas que a gente guarda barbante,passaporte e vela de aniversário, tudo junto...Casa com vida é aquela em que a gente entra e se sente bem-vinda.A que está sempre pronta pros amigos, filhos...Netos, pros vizinhos...E nos quartos, se possível, tem lençóis revirados por gente que brinca ou namora a qualquer hora do dia.Casa com vida é aquela que a gente arruma pra ficar com a cara da gente.Arrume a sua casa todos os dias...Mas arrume de um jeito que lhe sobre tempo pra viver nela...E reconhecer nela o seu lugar.

terça-feira, 28 de junho de 2011

MÁ COMPANHIA


Tentei pedir que fosse embora, mas foi em vão. A sensação que estava ao meu lado conversava em forma de arrepios no corpo, e secura na garganta, entre eu e ela um espaço de segundos como se fosse uma estrada sem sinais para acostamento. Não havia placas para repouso.
 O repouso dela era meu corpo, minha alma, embora a sentisse ao meu lado.
Conversamos em silêncio. Era uma noite igual, ela sabe muito mais sobre a minha vida. Conversei bobagens em tom menor, resmunguei queixas que apenas os meus pensamentos me ouviram. Tentei um diálogo. As respostas foram meus olhos queimando e o cheiro de lençol dobrado, intocável sobre a cama.
Agumas noites a mesma sensação se apodera do meu mundo e me toma os sentidos, como se eles fossem alheios. Vulnerável, eu deixo que ela me tome, arrancando cada soluço contido ou cada sorriso não dado.
Basta. Precisava relaxar o corpo na cama, esticar os braços e depois me encolher como uma concha. Mas essa companhia se tornou comum aos meus espaços, como um pássaro que voa e zomba da liberdade de poder adormecer e tomar conta do meu sono e conseqüentemente dos meus pesadelos.
  Fecho as janelas na ilusão de tapar as entradas, mas existem as arestas, que por elas escapam os anseios mais ferinos.
  Ela finge que voa, me esquece, e retorna quando preciso ser um pouco de mim, no corpo parado.
A reconheço em outros rostos insones, quando não estão sorrindo ou quando o olhar vagueia para o nada, sem condições de expressão maior, até em sorrisos abertos e alheios, como se a sensação forçasse a estupidez de uma cena patética, como uma noite sem medo.
Em muitas escuridões a insônia me faz companhia. Desisti de brigar com suas manhas, preferi torná-la uma companheira.
Ligo o rádio, a música é cansativa e sonolenta, mas não me contagia.  
A xícara de leite na mão, a sala escura e um silêncio que dá vontade de gritar. Dentro do peito uma onda de cansaço. Percebo que parece com as ondas do leite que sopro para fazer lembrar o mar.
Dentro de mim ouço uma voz que pede sono e a outra grita:
 -Fica. Tem um dia para nascer, você precisa assistir.
Retruco que são os meus dias de todas as antenoites, todas as madrugadas que não descubro a cortina do sol, por respeitar seu sono. Mas uma vez suplico:
- Insônia precisa ir, já fiz sala, lhe dei o meu cansaço e corpo, minha alma, não lhe dou, por mais que queira. Fica então com o meu lençol dobrado minha cama arrumada, afinal o mesmo dia já nasceu de novo.

segunda-feira, 13 de junho de 2011

CORPO E PENSAMENTO



Temos diferenças e ao mesmo tempo somos iguais. Temos estranhezas e nesses momentos,somos idênticos.Instantes em que o mundo me dá vantagens em poder imaginar.Seja o que for. Nada mais tem lógica, ao não ser o meu sentimento. E ele me domina. Cansado. Esgotado. Pensativo. Às vezes penso em chorar, mas existe silêncio. Não existe vontade em soluçar, existe um pensamento angustiado. A dormência me toma o corpo, sem saber reagir.
Jogo a cabeça para o lado e lhe vejo novamente. Enrolo o lençol atrás da minha nuca e penso no que pode acontecer, e me recordo de tudo que foi. O relógio me diz que as horas passam na madrugada lenta, barulho de folhas secas, gatos brigando, carros em alta velocidade.
Consigo fazer com que o travesseiro deixe meu pensamento mais lúcido, mémoria vivida, onde há resquícios de fatos e atos menos preguiçosos e percebo meu corpo igual. Igual ao de ontem, de antes, de amanhã, o mesmo que você teve tempo de fazer o amor acreditar que é forte. A mémoria agora é a sonhada, imaginada que posso modificar o roteiro de tempo, em tempo, brincadeira da lucidez que se esconde.
Trago ele comigo lépido e livre quando se joga em você, como faço com a minha cabeça tentando dormir. O lençol agora já faz parte do mesmo movimento das mãos, enrolado, amassado feito papel mal escrito. Sempre foi assim, será assim. Eu tentando me encontrar em você. Quando a parte do outro fica feito uma esteira na beira do mar, esperando o corpo deitar, esperando o sol esquentar, esperando... apenas. E ao ter o contanto entre corpo e chão o atrito é mais do que qualquer pensamento com raciocínio estúpido e fala sem lógica. Há o saciar da espera e o deleite de quem ansiava o choque.
Feito onda na pedra, água fria no corpo quente, areia grudada na pele molhada. Fecho os olhos e não adormeço, me esqueço e continuo deitada na esteira do meu pensamento,quando ouço o barulho de ondas e depois do impacto natural formam pequenas espumas e minúsculos balanços do mar, despertei e pressenti: era você querendo chegar.


Pablo Milanes : Yo No Te Pido

quinta-feira, 2 de junho de 2011

MEUS SENTIMENTOS NO RELICÁRIO


Tem momentos em que penso em buscar um guardião. Que tome conta das minhas palavras, do meu jeito, do meu pensamento. Preciso descansar do que me faz revolta e me levita sem eu querer. Muitas vezes escrevo como se meu corpo não fosse meu,como se meus dedos não fossem coordenados por mim. Quero um guardião com a alma leve, que guarde meus escritos no seu relicário. Como agora, que escrevi para pedir meu anjo da guarda que não suma. Me vele, me reze, me faça sua oração. E percebo, que até para pedir meu anjo, eu me afasto um pouco de mim, por medo das suas correções no meu espírito.


Tunay : Frisson

terça-feira, 31 de maio de 2011

APENAS LAÇOS


Há algum tempo reconheci mais uma mulher dentro de mim, talvez a mais significativa de todas as outras. A que formou, construiu e destruiu sentimentos. Consegui reconhecê-la quando estava na feira. Ela gritava mostrando sua banca de produtos. Eram bordados feitos a mão, toalhinhas de cozinha, de banho com detalhes impressionantes. Quanta delicadeza, não só isso, beleza e paciência. Algumas pessoas passavam e admiravam,diziam que amava aquele tipo de trabalho,outras não paravam,no final passavam todas.

Descobri que a cada ponto dado, também nele acompanhava um nó, e lá na frente não dando certo, ela desfazia cada ponto bem colocado por causa do erro menor. E os dedos muitas vezes se cortavam por causa da agulha e do cansaço.

Foi assim que me reconheci, em uma estrada de pontos cruzados. Nó preso no limite de cada erro.

A banca dos meus sentimentos havia chegado ao ponto final. Não havia trabalho algum finalizado, percebi que os nós estavam desfeitos aos poucos e minhas mãos e alma machucadas. Mas ainda havia estrada. Não continuei com a mesma velocidade, desconcentrei-me do tempo, onde os detalhes que ninguém percebera não tivessem mais importância. Fui caminhando e jogando ao vento todos os panos e com eles os desenganos. Tirei a liga do cabelo, joguei os sapatos fora, a agenda das horas que não valiam de marcação para qualquer dor. Restaram alguns nós e eu consegui desatar, sem machucar tanto, já havia calos e o ressecamento do choro, amenizava as furadas.

Mudei.

Gritar, chorar, amar. Fazer o que com os três? Guardei.

Caminhada longa, mas consegui parar, não agüentei a peleja de alma contra corpo e recostei-me nos mesmos lugares vividos, olhei as mesmas agulhas pontudas e vi que havia caminhado talvez em círculos ou fosse um labirinto que não conseguia reconhecer antes. Já não existia proteção alguma sobre minha alma, só um sentimento novo: vontade de esperar alguém que chamasse meu nome. Que viesse de qualquer sentido, pulasse o muro, abrisse o portão, cortasse a estrada, mesmo na contramão, mas chegasse. Era essa vontade morta que havia renascido, embora por dentro muitas marcas.

Assim que lhe vi e ouvi, acreditei. Nada de pontos e nós.

Pés descalços, apenas nossos laços.


Gilberto Gil : A Linha e o Linho

segunda-feira, 30 de maio de 2011

FAGUNDES DELIVERY


Novela tem cada uma que dá pauta. Quem assiste Insensato Coração já deve ter visto as cenas entre Antônio Fagundes e Camila Pitanga. Ele faz um personagem, digamos perfeito. Isso mesmo , ele é “Raul” que não tem um problema, tem um humor de fazer inveja, um sessentão charmoso e cheio de manhas.Ela (Carolina) bonita , bem sucedida e mãe solteira.Vamos a sessão SN (sem noção): Ela não tem onde deixar seu bebê ,não arranja uma babá,nem coloca o filho em uma super creche. Ora, dinheiro não é problema, e ainda tem o namorado Raul que está sempre presente, segura o bebê no colo, troca fralda, ainda dá dicas para a super namorada. Então se é para aloprar, poderíamos imaginar um “Disque-Fagundes”. É só ligar e ele resolve todos os seus problemas.

Hoje é segunda... estou completamente com preguiça ,por isto estou divagando com estas besteiras .

Há! Ontem Didi, o trapalhão estava com uma camiseta com uma frase maravilhosa que me identifiquei : “sexta-feira forever”.

E que venha a semana. (Eu, com bocejos repetitivos)






Eduardo Araújo : Ele é o bom

segunda-feira, 23 de maio de 2011

TODOS OS DEFEITOS


A vida exige muito mais para duas almas. O corpo exige outro corpo, a alma exige a imensidão de outro mundo que não é conhecido. É disso que preciso.

As toalhas podem até combinar com o jarro, tranqüilas para os olhos, mas é preciso haver uma desarmonia inocente, entre arranjos e flores, entre talheres e copos. Como dois corpos a caminho do mesmo objetivo, desalinhados, e almas inteiras, dueto de paz.

Amar numa seqüência lógica, não me deixa ser sincera, prefiro as estranhezas e mistérios. Cuido com zelo de todos os desafios e assim sou inteira. Seus defeitos prefiro até mais do que as qualidades, aprender amar com eles é ter a ilusão da soma do infinito, nada mais justo, não quero entendimentos que façam ver o quanto somos óbvios, preciso e prefiro comemorar, compartilhar nossos perdões humanos e aceitáveis aos mortais, sem rasgar e ferir sentimentos. Chegar num limite em que os meus defeitos sejam confundidos com os seus: tropeços de frases mal elaboradas, confissões passadas, sobre um olhar de ciúme infantil.

Antes imaginava que o amor seria enxergar na foto antiga o amarelado do passado e apenas recordar, vendo o sorriso na hora do corte do bolo decorado, tudo programado, reprisado, hoje sei que é muito mais.

É olhar qualquer imagem que traga paz e nos identificar, com as digitais de antes, os defeitos amadurecidos e qualidades amenizadas. Nada de exageros. Sem exibicionismos.

A sutileza do amor está na linguagem silenciosa, na presença de um vulcão que queima a mediocridade dos que apenas se tocam. Não, não quero o buquê das rosas mais raras, a jóia mais cara.

Basta uma vontade, uma certeza de saber, vontade de existir com você.


Carlinhos Brown : Romântico Ambiente

domingo, 15 de maio de 2011

MINHA CIDADE ESTÁ SOFRENDO E EU AQUI PENSANDO.


Tenho certa antipatia de dia de domingo e hoje depois de ler mais uma vez as notícias locais, preferi ficar na espreita, tomando um chá de pensamento. Aqui continua chovendo muito, a cidade um caos. Preciso colocar minhas raivas em uma estante, minhas decepções em outra e a vontade de gritar para o mundo que está tudo muito errado. Não sou palmatória do mundo, mas não sei ficar quieta quando vejo injustiça, pessoas vendidas. Natal é uma cidade linda, sou apaixonada pela minha terra. Não quero que ninguém a destrua, tem seus defeitos como todas as outras, mas atualmente ela está sendo massacrada pela péssima administração municipal que, diga-se de passagem, é do partido verde, o que teoricamente sua bandeira é preservação do meio ambiente. Hoje vejo minha cidade feia, esburacada, cinquenta secretários já foram mudados como uma ciranda de incompetência. Dói tentar buscar voz e ser silenciada por muitos jornalistas vendidos que nos seus blogues ou jornais não publicam uma linha sequer sobre o desastre na educação, na saúde, a epidemia da dengue matando pessoas quase todos os dias, a cultura devendo milhões.

Ainda temos que aturar fotos hipócritas e sorrisos cínicos como se nada estivesse acontecendo. A copa de 2014 vai ser uma bomba se realmente acontecer aqui. É muito dinheiro em jogo e o jogo nem começou já se percebe os lobos rondando e babando pelo seu quinhão, verdadeiras matilhas comandando a cidade. Agora vejo as dunas da minha janela, chove sem parar, e uma vontade de ser gigante como nos contos. Poder limpar minha cidade do lixo que domina restos das calçadas dos homens e dos homens lixo.

Estou decepcionada e sentida em ver que cada homem tem realmente seu preço. Mas fico aqui olhando o tempo e querendo respostas menos doloridas. Não me vejo vendendo minha dignidade, por moedas, por silêncios canalhas de pessoas que preferem enriquecer a custa da miséria humana, da morte de doentes sem ter a quem recorrer, mulheres grávidas sem ter como parir e na propaganda estúpida da TV, mostrando imagens maquiadas de mulheres lendo jornal ao lado do berço do filho num super apartamento em uma maternidade municipal. É de embrulhar o estômago. Como imaginam que somos tão imbecis? Eles têm filhos, parentes, amigos, ninguém é uma ilha. Somos todos da mesma aldeia Poti. Eu quero respeito, quero que respeitem a população. Como cidadã eu não me calo, como mãe, mulher, eu grito e aqui no meu humilde espaço, registro minha revolta.

Lamentável a posição de alguns profissionais que em seus blogues por anúncios pagos, ficam cegos diante da realidade, mas acredito e conheço também outros raros e dignos que preservo amizade, pois, lembram a posição política e digna que meu pai viveu: Jamais se calar diante de uma injustiça e não se vendeu. Sei que não vou juntar tesouros, nem deixar bens luxuosos, mas poderei olhar nos olhos do meu filho no futuro.

Previsão de mais chuva durante a semana, um tempo que precisa melhorar muito, mudar, para que o verde não seja apenas símbolo de demagogia.

segunda-feira, 18 de abril de 2011

O TESTAMENTO

Por: Rubem Alves.


"A HERANÇA DA VIDA NÃO SE TRADUZ NOS OBJETOS CONQUISTADOS, MAS EM UMA COISA MAIOR, QUE SÓ PODE SER TRANSMITIDA POR MEIO DA ORATÓRIA."

" Tempos atrás eu sugeri que se fizesse uma mudança na liturgia que marca a passagem dos anos da vida de uma pessoa, que não mais se apagassem as velinhas, como se a morte dos anos passados fosse uma coisa a ser celebrada, mas que se acendesse uma única vela, na esperança de um futuro semelhante ao da vela, de luz e tranquilidade.
O tempo passou e chegou a hora de reacender a minha vela. Que pensamentos pensarei? Acho que vou meditar sobre o testamento. É uma idéia da qual não se pode fugir, quando se da conta de que a cera que resta é muito menos do que a cera que já se queimou.
O testamento é o que restou, depois de feitas todas as somas e subtrações. É aquilo que se passa nas mãos dos que continuarão a viver depois de nós, com um pedido: "Por favor, na minha ausência, não se esqueça de regar a minha planta..."
Claro que não estou pensando nas coisas que fui ajuntando no passar dos anos. Elas não tem a menor importancia. Não tem o poder de nos tornar nem mais sábios e nem mais felizes. Porque sabedoria e felicidade são coisas que crescem por dentro, enquanto as coisas ajuntadas ficam de fora. Pelo contrário: já vi vidas e amizades perturbadas e destruídas por causa de uma herança.
Mas aí me descubro ansioso. Porque a distribuição de propriedades e objetos é coisa simples - basta que se escreva um testamento. Mas aquilo que eu realmente desejo dar para meus filhos não pode ser dado. É coisa que só pode ser semeada, na esperança de que venha a crescer.
Acho que a minha situação se parece com a de Vinícius de Moraes. Também ele queria deixar um testamento. Não de coisas, como se fosse um ritual eucarístico, em que o que se dá aos outros são pedaços do próprio corpo, na esperança de que eles comerão e gostarão. No fundo, o que se deseja é a imortalidade: continuar vivos naqueles que comem o que lhes oferecemos como herança.

Mas só existe um jeito de dar ao outro aquilo que é a carne da gente: falando. Vejam só que coisa mais pobre: uma herança cujas coisas deixadas são palavras.
É o que desejo deixar aos meus filhos como herança: a imagem da vela que queima na solidão silenciosa, sem se deixar perturbar pela loucura barulhenta e apressada dos homens de ação e sucesso; sob a luz da vela, no gozo da tranquilidade solitária, acordar o poeta que dorme em nós. O que não é garantia de felicidade. Mas é garantia de beleza e de serenidade. E que coisa mais pode alguém desejar receber como herança? "

(Rubem Alves)

Fonte: Revista Psiquê Março de 2011

quinta-feira, 7 de abril de 2011

AMIGO ME MANDE UMA NOTÍCIA BOA


Por quê? Pra quê? Será que podemos perguntar? O mundo real está se acabando na maldade. Hoje estou mais chocada, triste, cansada de tantas notícias ruins ,assistindo o massacre no Rio de Janeiro em uma  escola ,onde um psicopata mata várias crianças. Esforçamos-nos em falar de amor, de alegria, de esperança, mas anda dificil por aqui. O mundo virtual, nós blogueiros, visitantes e amigos tentamos amenizar as realidades, extravasamos, rimos,brincamos e também percebemos com o tempo angústias e tristezas dos outros e respeitamos cada um do seu jeito. Mas confesso que escrevo emocionada, com o medo que me toma por não saber como conviver com tanta maldade.

Como um homem sai da sua casa e mata por nada crianças indefesas  dentro de sala de aula com a esperança e alegria no peito? E que para por uma bala o futuro?

“ele entrou atirando, ficamos rindo achando que era uma brincadeira que o revólver era de brincadeira, mas depois eu vi o sangue e minha amiga morta, saí correndo.” (sic) (depoimento de um aluno de 13 anos que escapou ).

Deus onde isso vai acabar? Lembrando a música de Chico e Francis: “... amigo me mande uma notícia boa.” porque eu aqui já não aguento mais.

Yasmine Lemos

07/04/2011
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