Em conversa de adultos, rodas de farras,
reuniões familiares, notava que havia de vez em quando algo estranho no ar, olhares
parados olhando para uma só pessoa do grupo, nem piscavam, atentos e depois o
cochicho básico, risadas ou algum espanto carregado de falso moralismo. E nessa
hora eu movida pela curiosidade que qualquer criança normal tem, aparecia no
ambiente querendo saber o que havia de tão importante e grave. E lá vinha a frase
de alguém do grupo como se fosse um comandante do bope mandando que todos fechassem as bocas: “- Psiu! Meu Dedo chegou!”.
Demorei a entender que “meu
dedo” era eu, que o silêncio era para que eu não soubesse do segredo, da
fofoca, do assunto, embora colasse frases na minha cabeça, quase todas, e no
fundo eu gostava da tensão que causava com meus cincos ou seis anos entre
adultos ditos calejados pela vida e cheios de conceitos. E quantas vezes eu
fingia não ouvir, nem perceber um indicador qualquer por cima da minha cabeça e
a frase no ar: “- Deixe Meu Dedo sair que (o tom de voz agora maior) depois eu
conto”. Confesso que me sentia um perigo, o máximo.
Em tempo: Segredos não se dividem
se vivem. São sacrilégios ou escapulários.