quarta-feira, 10 de agosto de 2011

A PROVA



Sonora Dodd era filha de um veterano de guerra no ano 1909. Ouvindo um sermão dedicado as mães ela teve a idéia de celebrar o dia dos pais, pois a sua mãe havia morrido ao dar a luz ao sexto filho. Sonora cresceu vendo seu pai criar os filhos com dificuldade e orgulhava-se dele.

Já adulta conseguiu junto ao ministério de Spokane (cidade de Washington, EUA) a oficialização do dia dos pais, 19 de junho daquele ano. No Brasil foi comemorado em 14 de agosto de 1953, por ser dia de São Joaquim, patriarca da família, depois por motivos comerciais foi alterado para o 2º domingo de agosto ficando diferente das datas americanas e européias.

Bela atitude a de Sonora, os motivos foram nobres e justos, amor incondicional, respeito e admiração. Não havia ainda o excesso de amor por tabela que vimos atualmente em nossa sociedade. Os celulares tocando e os pedidos mais absurdos do outro lado da linha.
Sempre admirei e ficava curiosa quando via e assistia as filas nos presídios, dos filhos e filhas para visitarem seus pais detentos. Achava de uma estupidez no primeiro momento, depois sentia um misto de pena com admiração por não terem vergonha de entrarem ali, apenas para dar um abraço naquele que já tinha a vida completamente condenada e cheia de erros. Assistindo a tantas cenas e vivendo outras, não se pode medir os sentidos lógicos de quem realmente ama ou não ama. E a vida vem provando que quanto mais dinheiro tiver, maior a prova do amor. É fácil amar quem é um provedor modelo, que ama por querer o prazer, o conforto, a alegria de um filho. Deve ser difícil amar na miséria, na angústia de não saber se vai vê-lo. Daqueles pais que saem de casa um dia e somem, aparecendo meses depois ou muitas vezes, nunca. Sequer para saber se existe fome.

O sentido comercial tirou uma boa parte do encanto de amar com os defeitos explícitos, dentro do limite da dignidade humana. Não lembro exemplos raros como o de Sonora, mas lembro de uma família que morava perto da minha casa, na minha adolescência. Eram muitos irmãos. De origem humilde, mas trabalhadores, e o pai não tinha muito para oferecer, além do amor ,o teto alugado e as três refeições diárias feitas pela mãe já idosa.
Curiosa, gostava de ouvi-lo falar sobre sua vida no interior do estado. Sua cadeira de balanço ,perto das cinco da tarde, ele sentava-se na calçada e observava cada movimento da rua, tinha uma aposentadoria mínima, mas digna. 

Os filhos foram se formando, casando e eu crescendo e também tive que começar a trabalhar. Nossas conversas foram ficando escassas, mas o meu aceno de longe não podia faltar para a figura que o tempo demonstrava envelhecer. Ele voltou para sua terra. Anos depois, o reencontro com um aspecto corroído por uma doença terrível (pessoas boas não deveriam sofrer) me deixou triste e vi seus filhos ao redor, cuidando e zelando. Conversamos tão pouco, pois a dor física já calava a sua voz, ele só balbuciava. E do pouco que me disse não esqueci:

- “Feliz do homem que morre e não deixa herança, nem bens e ainda tem o amor dos filhos, eu sou um sortudo...!”

Sim, ele foi um afortunado como dizem os mais experientes, mas de amor.

13 comentários:

  1. "Deve ser difícil amar na miséria"
    Até me emocionei com esse texto... também acho que o amor tá convencionado a bens materiais, quando o verdadeiro amor é o que supera-se na miséria, e nao precisa de nenhum outro motivo.

    Beijo amiga!

    ResponderExcluir
  2. ...meu pai sempre se dizia sortudo qdo nos via
    todos ao seu redor.

    ai q saudades!

    beijo

    ResponderExcluir
  3. Linda, tocante tua crônica... Feliz mesmo desses!!!beijos,chica

    ResponderExcluir
  4. Olá, querida
    Do meu pai eu posso dizer o mesmo... a frase final é marcante pra mim... no dia 18 vc vai saber o porquê...
    Bjs de paz

    ResponderExcluir
  5. Boa noite e novamente me lembrando do meu velho, porem, feliz adorava dançar, amava os filhos, mesmos os distantes, nao construiu nada e tambem nao teve nada...mas morreu com dignidade e do jeito que desejou: dormindo...Que Deus o tenha em bom lugar..to emocionada e todos esses dias serão assim...bjin

    ResponderExcluir
  6. Uma bela crônica!!! Parabéns!
    Beijocas!

    ResponderExcluir
  7. Lindona, que linda história, bem meu pai viveu longe da gente e quando voltou tava com alzheimer, e uma coisa que nunca se esqueceu, mesmo esquecendo todo o resto foi de cada filha.

    Beijinhos lindona.

    ResponderExcluir
  8. Belissima liçao de vida amiga...grande beijo de bom dia pra ti.

    ResponderExcluir
  9. Oi Yasmine, passando rapidinho pra deixar o meu abraço, volto depois com mais calma, hoje estou na correria.
    Beijos pra ti com carinho!

    ResponderExcluir
  10. Tão verdadeiro isso! "O pouco com Deus é muito! "

    ResponderExcluir
  11. Gostei da crônica e deste sinalizar do referencial do dinheiro como denostração do amor.
    Os valores se invertem ao longo das mudanças ocorridas rapidamente. Absorver e viver estas mudanças nem sempre é fácil.
    bjs

    ResponderExcluir
  12. Oi Yasmine!
    Lindo seu texto e a reflexão que ele nos permite fazer! Amor condicionado a bens materiais é fácil, na escassez é que são elas. Certamente são as que resistem aos maiores abalos, pois a união é mais revestida de amizade e cumplicidade.

    Beijo carinhoso!

    ResponderExcluir
  13. Quem planta amor colhe amor.

    È sortudo sim quem passa pela vida doando-se aos filhos, o retorno é certo.

    Linda história, Yasmine.

    Beijos!

    ResponderExcluir

Amor e Paz

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...