segunda-feira, 18 de abril de 2011

O TESTAMENTO

Por: Rubem Alves.


"A HERANÇA DA VIDA NÃO SE TRADUZ NOS OBJETOS CONQUISTADOS, MAS EM UMA COISA MAIOR, QUE SÓ PODE SER TRANSMITIDA POR MEIO DA ORATÓRIA."

" Tempos atrás eu sugeri que se fizesse uma mudança na liturgia que marca a passagem dos anos da vida de uma pessoa, que não mais se apagassem as velinhas, como se a morte dos anos passados fosse uma coisa a ser celebrada, mas que se acendesse uma única vela, na esperança de um futuro semelhante ao da vela, de luz e tranquilidade.
O tempo passou e chegou a hora de reacender a minha vela. Que pensamentos pensarei? Acho que vou meditar sobre o testamento. É uma idéia da qual não se pode fugir, quando se da conta de que a cera que resta é muito menos do que a cera que já se queimou.
O testamento é o que restou, depois de feitas todas as somas e subtrações. É aquilo que se passa nas mãos dos que continuarão a viver depois de nós, com um pedido: "Por favor, na minha ausência, não se esqueça de regar a minha planta..."
Claro que não estou pensando nas coisas que fui ajuntando no passar dos anos. Elas não tem a menor importancia. Não tem o poder de nos tornar nem mais sábios e nem mais felizes. Porque sabedoria e felicidade são coisas que crescem por dentro, enquanto as coisas ajuntadas ficam de fora. Pelo contrário: já vi vidas e amizades perturbadas e destruídas por causa de uma herança.
Mas aí me descubro ansioso. Porque a distribuição de propriedades e objetos é coisa simples - basta que se escreva um testamento. Mas aquilo que eu realmente desejo dar para meus filhos não pode ser dado. É coisa que só pode ser semeada, na esperança de que venha a crescer.
Acho que a minha situação se parece com a de Vinícius de Moraes. Também ele queria deixar um testamento. Não de coisas, como se fosse um ritual eucarístico, em que o que se dá aos outros são pedaços do próprio corpo, na esperança de que eles comerão e gostarão. No fundo, o que se deseja é a imortalidade: continuar vivos naqueles que comem o que lhes oferecemos como herança.

Mas só existe um jeito de dar ao outro aquilo que é a carne da gente: falando. Vejam só que coisa mais pobre: uma herança cujas coisas deixadas são palavras.
É o que desejo deixar aos meus filhos como herança: a imagem da vela que queima na solidão silenciosa, sem se deixar perturbar pela loucura barulhenta e apressada dos homens de ação e sucesso; sob a luz da vela, no gozo da tranquilidade solitária, acordar o poeta que dorme em nós. O que não é garantia de felicidade. Mas é garantia de beleza e de serenidade. E que coisa mais pode alguém desejar receber como herança? "

(Rubem Alves)

Fonte: Revista Psiquê Março de 2011

12 comentários:

  1. Não sei nem o que dizer.
    Acho que é isso mesmo: uma grande herança são mesmo as palavras deixadas.
    Bom dia Yasmine e boa semana

    Xeros

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  2. Achei este texto perfeito e de uma sabedoria grandiosa.Um beijo Ana e uma semana em paz

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  3. Olá amiga
    Excelente texto. A maioria se preocupa em deixar bens materiais, como se isso fosse a essência da vida. Existem coisas que só se dão por meio de exemplos e palavras, essas são as verdadeiras heranças.
    Bjux

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  4. OI Wander... o pior é que a maioria ,a garnde maioria só peça no vil metal,mas que a sabedoria da alma boa sobreviva.
    beijo

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  5. Maravilha de texto.Rubens sabe das coisas...beijos,chica

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  6. QUE LINDO!

    O que deixar de herança... que testamento pode escrever um poeta!? A coisa mais simples é a mais valiosa...
    somos herdeiros da poesia de nossos antepassados!
    acho isto belo, sei que em algum lugar dos meus cromossomos está o de seresteiro... o de malandro... o de poeta.... e agradeço esta herança!
    Amo Rubem Alves! Amo!
    Poeta Linda! Amo sua mensagem!
    Bjus de Luz Yasmine!

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  7. Willian, vc disse tudo! beijão meu amigo!

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  8. Muito sábio mesmo o texto.
    Os objetos conquistados sao meros objetos. Devíamos ter em mente em deixar de herança valores importantes às pessoas, como uma forma de seiva para alimentá-las ao longo das suas vidas, porque é só o que fica.

    Boa semana flor!

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  9. Cris, são meros objetos,se acabam,mas ainda falta muito para que a sensibilidade e o desapego vençam a vaidade e ganância .Grande beijo e uma semana de paz p vc também

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  10. Excelente texto. Não conhecia. Obrigada pela partilha.
    beijinho

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  11. Boa noite minha linda, eu amo Rubens Alves, pelos seus pensamentos em relação a educação dos pequenos...Entrei uma vez no site dele e chorei tanto com seus escritos maravilhosos...Boa escolha para esses dias de reflexão...bjin

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Amor e Paz

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