terça-feira, 31 de maio de 2011

APENAS LAÇOS


Há algum tempo reconheci mais uma mulher dentro de mim, talvez a mais significativa de todas as outras. A que formou, construiu e destruiu sentimentos. Consegui reconhecê-la quando estava na feira. Ela gritava mostrando sua banca de produtos. Eram bordados feitos a mão, toalhinhas de cozinha, de banho com detalhes impressionantes. Quanta delicadeza, não só isso, beleza e paciência. Algumas pessoas passavam e admiravam,diziam que amava aquele tipo de trabalho,outras não paravam,no final passavam todas.

Descobri que a cada ponto dado, também nele acompanhava um nó, e lá na frente não dando certo, ela desfazia cada ponto bem colocado por causa do erro menor. E os dedos muitas vezes se cortavam por causa da agulha e do cansaço.

Foi assim que me reconheci, em uma estrada de pontos cruzados. Nó preso no limite de cada erro.

A banca dos meus sentimentos havia chegado ao ponto final. Não havia trabalho algum finalizado, percebi que os nós estavam desfeitos aos poucos e minhas mãos e alma machucadas. Mas ainda havia estrada. Não continuei com a mesma velocidade, desconcentrei-me do tempo, onde os detalhes que ninguém percebera não tivessem mais importância. Fui caminhando e jogando ao vento todos os panos e com eles os desenganos. Tirei a liga do cabelo, joguei os sapatos fora, a agenda das horas que não valiam de marcação para qualquer dor. Restaram alguns nós e eu consegui desatar, sem machucar tanto, já havia calos e o ressecamento do choro, amenizava as furadas.

Mudei.

Gritar, chorar, amar. Fazer o que com os três? Guardei.

Caminhada longa, mas consegui parar, não agüentei a peleja de alma contra corpo e recostei-me nos mesmos lugares vividos, olhei as mesmas agulhas pontudas e vi que havia caminhado talvez em círculos ou fosse um labirinto que não conseguia reconhecer antes. Já não existia proteção alguma sobre minha alma, só um sentimento novo: vontade de esperar alguém que chamasse meu nome. Que viesse de qualquer sentido, pulasse o muro, abrisse o portão, cortasse a estrada, mesmo na contramão, mas chegasse. Era essa vontade morta que havia renascido, embora por dentro muitas marcas.

Assim que lhe vi e ouvi, acreditei. Nada de pontos e nós.

Pés descalços, apenas nossos laços.


Gilberto Gil : A Linha e o Linho

15 comentários:

  1. Simplesmente genial,Yasmine! Todos temos nós, mas não dar importância só a eles e seguir com os laços que unem, aproximam, é muito melhor...beijos,lindo dia,chica

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  2. Muito bem descerito trajeto. Tentando desfazer os nós que aprisionam, mas não permitir que eles façam uma forca em torno das esperanças.
    bjs

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  3. Oi Yasmine!
    Liiindo!
    Me emocionei, pois fui me vendo aí...
    O importante é tentar avançar sem fazer pressão nos nós que não conseguiu desatar e refazer tentando acertar os desmanchados... Laços que se toram nós... irônico.

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  4. Olá Yasmine
    Desfazer os nós de nossa vida, pode nos custar muitas dores, mas mesmo assim vale a pena correr os riscos.
    Bjux

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  5. Laços ! que sejam mais um detalhe na criatividade da nossa convivência.
    Laços de família, laços de ternura ,laços no cabelo , laços de fita. De todas as cores.
    E sem embaraços.
    Um lindo dia Yasmine
    com beijinhos

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  6. Que coisa especial esse teu texto, algo profundo e reflexivo, gostei muito
    As vezes observar nos traz grandes ensinamentos e insights
    Uma ótima semana pra ti!

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  7. amor é isso...
    Não prende, não escraviza, não aperta, não sufoca.

    Beijo meu.

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  8. As vezes certas decisóes nos fazem cortar o cordáo...beijo Lisette.

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  9. Oi,Yasmine!O que dizer se tudo já foi dito?Tão lindo seu texto!A vida é assim mesmo, nos machuca, parece nos pedir mais do uqe podemos dar,mas o tempo sara as feridas e mais uma vez somos postos a prova e a gente sempre espera por alguém que venha nos socorrer no meio desse caminho...
    Beijos

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  10. Como é bom ler você! Mergulhar em suas profundas palavras. Palavras belas que nos levam a pensar, realmente, num ponto final. Assim, pelas estradas caminham as almas, procurando a saída de um labirinto, e, quase sempre seria preciso um grito, num canto construído num silêncio profundo.

    Parabéns!

    Escreva sempre!

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  11. Eu fui pensando ia entrar na feira e você me vem com um relicário literário hehe é bem assim com quem escreve bem, sempre surpreendendo!
    Quando me autorizar vou levá-lo, ou aquele anterior que também me marcou :-)

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  12. Oi Querida Yasmine, lindo e comovente texto!

    Laços são sempre uma forma de aproximar, sejam eles quais forem.

    Tem convite pra vc no Retratos em Degradê.Passa lá depois e vê se aceita participar do desafio.
    Seria um prazer tê-la nessa maratona.

    grande beijo
    LU CAVICHIOI

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  13. DEUS! Como eu amo vir aqui! E como eu mao ler você Yasmine! Que texto incrívelllllllll! Sem palavras. To de pé te aplaudindo não to pulando! Lindo amiga! Não é exagero meu não! É deu Divino Dom que me ajuda a renascer... tem uma mulher desta agora, vivendo dentro de mim também! ( Aguarde, que tem Bejo de Fogo pra vc lá no VF daqui uns dias! )

    Bju de Luz! Gratidão profunda por esta jóia digna do Nobel!

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  14. Meu amor,
    Nesse primeiro de junho, junho dos dos namorados e do São Jõao e do São Pedro e dos forrós, seguimos vivendo descalços os nossos laços.
    Ivan

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  15. Amor se reconhece, sempre acreditei nisso...
    Texto lindo, você não imagina o bem que me fez.
    Beijo

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Amor e Paz

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